A Física e o OM

Desde o final do Renascimento, com o surgimento do dualismo cartesiano e a ascenção do método científico, o mundo ocidental experimenta o "desencantamento do mundo", processo pelo qual a natureza foi destituída de todas as qualidades que a tornavam graciosa, viva e espiritual. Podemos caracterizar esse estado, basicamente, em termos de uma separação entre ciência, filosofia, arte e religião, cujas conseqüências são evidentes neste início do século XXI:

  1. Um avanço tecnológico anti-ético e a serviço de grandes grupos econômicos ou das forças armadas, empregando boa parte da comunidade científica, desperdiçando talentos e recursos ao desenvolver meios sofisticados de destruição total, promovendo a devastação do meio ambiente e gerando pobreza e desumanização da população mundial. Os cortes de verba para o programa espacial e para a construção da próxima geração de aceleradores de partículas, enquanto dezenas de bilhões de dólares são gastos em programas de defesa inúteis, por exemplo, revelam que os cientistas se venderam para a ordem estabelecida, tornando-se impotentes para influir sobre a política científica, de modo geral, no sentido de priorizar a pesquisa de problemas científicos fundamentais e prementes, tendo se transformado em defensores das injustiças e do obscurantismo que servem de base ao nosso sistema social.
  2. A crise da filosofia que, perdendo o foco sobre a questão do conhecimento, pendeu para um discurso irracionalista, literário e estéril. Dado o elevado grau de abstração atingido pela Física moderna, a mais avançada e fundamental das ciências, a maioria dos filósofos da ciência se acanhou numa posição comodamente cética. Deixando de lado o valor metafísico da ciência, por considerá-lo pertencente a um campo quase religioso e inacessível à razão, esses filósofos tímidos preferiram restringir seu discurso aos aspectos sociais e políticos associados às aplicações práticas da ciência. Deste modo, os céticos abdicaram da busca da verdade quando encararam a complexidade dos problemas lógicos que o método científico evoca relativos à interpretação e à existência do mundo físico.
  3. A carência de critérios estéticos, fundamentados teoricamente em termos filosóficos, permitiu que o relativismo estilístico usurpasse o lugar do belo. A tendência poliestilística atual procura se apoiar na variedade de apreciações dos sujeitos, dissimulando seu apelo consumista, exercido por meio de estratégias de marketing, que procuram criar vários segmentos de mercado para escoar a produção de artistas descartáveis e pouco criativos. O resultado são obras com forte apelo sensual e pobres de conteúdo intelectual, facilmente acessíveis aos sujeitos, que procuram se autoafirmar mutuamente pelos diferentes estilos de arte que consomem. Este empobrecimento acabou por substituir o sentimento de arrebatamento estético, gerado pela compreensão racional da unidade subjacente à complexidade da obra de arte, pela mera satisfação dos apetites sensuais.
  4. A religião, por sua vez, amedrontando os homens diante do desconhecido, tornou a divindade totalmente apartada do ser humano comum, legitimando-se enquanto instituição como intermediária entre Deus e o homem e assumindo um caráter excessivamente moralista, com o propósito de atuar como instrumento de controle social a serviço dos detentores do poder político. Os crentes religiosos em sua maioria se empenham em desmerecer a Lógica afirmando que os sentimentos podem refutar as conquistas da razão e poucos teólogos eruditos ainda se mantêm fiéis à antiga tradição intelectual. Vez por outra a imprensa divulga alguma declaração sensacionalista de algum teólogo de que os físicos confirmam o que se pode ler no Livro da Gênese e esses teólogos tentam se aproveitar da crise cética da ciência, fundando uma teologia sobre pontos momentaneamente não resolvidos, o que é pernicioso na medida em que leva o público a ver uma ameaça nas novas descobertas. Desse modo, os teólogos ficam entre a posição ridícula de desprezarem fatos científicos e aquela desonesta de torcerem as palavras dos cientistas. Observando o progresso da ciência por áreas que outrora foram exclusividades da teologia, vemos que os religiosos se desesperam ao invés de procurarem redefinir suas posições em termos mais modernos.

Do século XVIII para cá os físicos adotaram uma atitude hostil diante dos temas da Metafísica tais como o conhecimento, a existência do mundo exterior, a substância e a forma, o problema da vida e da morte, a alma e o corpo e o problema de Deus. Paradoxalmente, apesar da Física ser a ciência mais apta a esclarecer esses problemas, a comunidade científica se recusa há trezentos anos a admitir a Metafísica em sua linguagem e em seu campo de experiência, muito embora essas questões metafísicas constituam as principais indagações do ser humano.

A física quântica alterou nossa visão de mundo, de modo que não mais concebemos a matéria como sendo constituída por inúmeras partículas sólidas, mas como uma onda de probabilidade no vácuo, cuja evolução temporal é determinada por uma lei matemática conhecida como Equação de Schrödinger. A onda descreve a probabilidade do sistema ser observado num certo estado com propriedades físicas bem definidas, como posição, momento e energia. O sistema encontra-se indefinido até que um observador consciente realize uma medida, por ocasião da qual o sistema escolhe aleatoriamente, de acordo com a distribuição de probabilidades descrita por sua onda associada, o estado particular em que se apresentará.

Num famoso experimento realizado pelo físico Alain Aspect de 1982, ficou demonstrada a interpretação idealista da mecânica quântica, isto é, que as características físicas de um sistema são determinadas, ou criadas, pelo observador, sujeito consciente, mente ou espírito no ato da medida. Além disso, o experimento corrobora o ponto de vista segundo o qual nosso mundo fenomenalmente local está, de fato, sustentado por uma realidade invisível e não-local. Pode ser que esta realidade profunda tenha alguma relação com a consciência, mas nenhum físico pode ainda especificar em que espécie de mundo vivemos.

Esta nova forma de conceber a realidade rompe com a visão kantiana pessimista, baseada numa distinção rígida entre sujeito e objeto, segundo a qual a realidade em si não pode ser apreendida pelo ser humano. De acordo com a interpretação idealista da realidade quântica, a consciência humana é parte integrante e indispensável do sistema quântico do universo e a natureza da matéria é identificada com o esquema conceitual da mecânica quântica utilizado para descrevê-la. Considerando que nossas percepções e idéias estão em contato íntimo com o próprio âmago da realidade, nada nos impede de sentir ou conceituar a realidade em si.

Este entrelaçamento entre sujeito e objeto torna possível ao cientista que realize uma espécie de mergulho meditativo no seu inconsciente, buscando aquela intuição que irá transmutar a sua visão da natureza. Esta apreensão intuitiva da realidade torna a elaboração de uma teoria científica similar ao processo criativo do artista e às experiências místicas. Procedendo desta maneira, o físico efetua mais que uma mera descoberta, ou formulação de hipóteses gerais, realiza ele um verdadeiro ato metafísico de criação. A metafísica exige mais que um esforço de pesquisa; ela exige qualidades de criação, de síntese, sendo que a grande maioria dos físicos são meros analistas, incapazes de filosofar, daí sua aversão à metafísica perdurar já há três séculos. Não é fácil encontrar um Newton ou um Einstein.

Enquanto que o idealismo Kantiano expressa uma espécie de concepção da realidade dualista pessimista, consistente com a física newtoniana, a interpretação idealista da realidade quântica revela uma visão de mundo próxima de um monismo otimista. De fato, para Kant a "coisa-em-si", que é uma conseqüência lógica da distinção entre sujeito e objeto, uma vez que deve atuar como fonte das percepções que constituem os fenômenos acerca dos quais o sujeito emite seus juízos, possui substância material e jamais pode ser concebida pela mente humana, também substancial, a qual pode somente relacionar-se consigo mesma, através de suas percepções e construções. Já a interpretação quântica não reconhece uma distinção fundamental entre sujeito e objeto, correlacionando elementos mentais, como as idéias matemáticas, e materiais, como as partículas elementares. Deste modo, a mente e a matéria constituem dois aspectos de uma única substância não-local, com todos os problemas lógicos de auto-referência resultantes, tornando a realidade quântica compreensível, embora muito complexa.

Este assalto idealista aos domínios tradicionalmente materialistas da física despertou a repulsa de filósofos céticos, como Bertrand Russel(considerado por Karl Popper talvez o maior filósofo depois de Kant), por exemplo, que considerava a incorporação de elementos imateriais, ou metafísicos, como o espírito, à estrutura da realidade física como uma espécie de retrocesso a superstições pré-científicas e ingênuas. Mas a descoberta da não-localidade do mundo, que o venerável filósofo supracitado, certamente um dos intelectuais mais influentes do século XX e falecido em 1970, não chegou a conhecer, veio para ficar, tanto que dentre os físicos teóricos que acreditam na realidade criada pela consciência podemos citar cientistas do porte de John von Neumann, Eugene Wigner(prêmio Nobel) e Henry Pierce Stapp, de Berkeley, teórico da matriz-S. Os adeptos desta interpretação da mecânica quântica mostraram à comunidade científica que a Metafísica pode contribuir para o avanço científico fornecendo meta-contextos capazes de dar significado às teorias científicas abstratas das fronteiras de pesquisa atuais.

Estes meta-contextos, por sua vez, têm sido enriquecidos com objetos de natureza matemática altamente abstratos, freqüentemente fornecidos por avanços matemáticos paralelos, os quais propiciam uma espécie de vocabulário básico, permitindo aos físicos que formulem suas teorias de modo preciso. Quando exploram o terreno platônico das idéias matemáticas, os metafísicos se orientam pela sua intuição matemática e critérios estéticos como equilíbrio e simplicidade. E vez por outra, quando ousam a se atirar, em vôos livremente imaginativos, ao caos transcendental das possibilidades, motivados por aspirações metafísicas como a busca da verdade, despertam de seu transe metafísico trazendo à sua consciência física objetos matemáticos temivelmente abstratos que lhes conferem poderes de transmutação da realidade, por meio de suas predições teóricas de fenômenos nunca antes observados, o que aumenta a testabilidade de suas teorias frente à realidade que buscam compreender.

Os físicos já perceberam que o avanço científico ocorre em ciclos de paradigmas, assinalados por rupturas, e por isso compreendem o caráter necessariamente provisório de suas teorias como uma ascenção evolutiva em espiral rumo à quintessência do conhecimento, que tem o poder de reencantar nosso mundo atual, unindo seus quatro elementos constitutivos; religião, filosofia, arte e ciência. E, para representar este poder transformador da mente sobre a matéria que é o conhecimento, escolhi o símbolo do "Om", o som da criação, associado à "dança de Shiva":

No Linga Purana, conta-se que certa vez Brahma e Vishnu estavam discutindo acerca de quem seria o ser supremo. Subitamente uma enorme coluna de fogo se erigiu diante deles, no interior da qual estava Shiva, enquanto o som da sílaba sagrada "Om" se produziu clara e longamente. Imediatamente os dois deuses compreenderam que estavam diante do ser supremo. Shiva é o aspecto destruidor da tríade suprema hindu, Vishnu sendo o preservador e Brahma o criador.

Em seu aspecto feminino, como dançarino, Shiva é denominado Nataraj e sintetiza a trindade suprema. A dança cósmica de Nataraj, em ciclos de criação, preservação e destruição, produz o som do "Om" ou "AUM".

Nataraj, o Dançarino Cósmico

Na postura de Nataraj, a cabeça, mãos e o pé virado para cima lembram o delineamento do signo do "Om". Nataraj é a divindade associada ao "Om", que representa o centro de energia que deu origem à natureza, associada à deusa Prakriti, numa explosão de luz. Deste modo, Brahma enquanto Mente Universal cria a Natureza, ou Prakriti, por meio de seu Verbo, ou conhecimento expresso, poderoso e substancializado na energia vibratória do "Om".

"Om Namah Shivaaya"
(Mantra do Deus Shiva)

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